Editora: Leya
Ano: 2012
Páginas: 534
Sinopse: Ether é um mundo protegido por poderosos avatares em forma de fadas-amazonas. Um dia, porém, cansadas das falhas dos seres racionais, algumas delas se voltam contra as antigas raças. E assim nasce a Era Antiga. Hoje, Arzallum, o Maior dos Reinos, tem um novo Rei e vive a esperada Era Nova. Coisas estranhas, entretanto, nunca param de acontecer... Dois irmãos sobreviventes a uma ligação com antigos laços de magia negra descobrem que laços dessa natureza não se rompem tão facilmente e cobram partes da alma como preço. Uma sociedade secreta renascida com um exército de órfãos resolve seguir em frente em um plano com tudo para dar errado em busca do maior tesouro já enterrado, sem saber o quanto isso pode mudar a humanidade. O último príncipe de Arzallum viaja para um casamento forçado em uma terra que ele nem mesmo sabe se é possível existir, disposto a realizar um feito que ele não sabe se é possível realizar. Uma adolescente desperta em iniciações espirituais descobre-se uma mediadora com forças além do imaginário. E um menino de cinco anos escala uma maldita árvore que o leva aos Reinos Superiores, ferindo tratados políticos, e dando início à Primeira Guerra Mundial de Nova Ether.
Essa é
a segunda saga de literatura fantástica nacional que finalizo a leitura, apesar
do autor já ter mencionado a produção de um quarto volume, tratando a atual
trilogia Dragões de Éter como uma espécie de saga ou ciclo fechado. O primeiro
volume (Caçadores de Bruxas) me arrebatou de maneira surpreendente; mesmo
criando boas expectativas para o livro, ele conseguiu ser muito mais do que
imaginara, tornando-se parte de minhas obras favoritas. Já o segundo volume
(Corações de Neve) trouxe uma impressão diferente da história, menos atraente
que seu início, mas ainda assim instigante. O que dizer então deste terceiro
volume?
O
diferencial aparente encontra-se logo no tamanho do livro, superando os
anteriores, com suas 534 páginas. Consequentemente, a dimensão da trama também
excede tudo o que a saga mostrou em seus dois “episódios”. Ocorre a Primeira
Guerra Mundial de Nova Ether, o acontecimento mais significativo do enredo até
então, o maior ensejo de Círculos de
Chuva. No entanto, o narrador nos oferece apenas os fatos envolvendo o
reino protagonista da série, abstendo o leitor de uma visão ecumênica com cenas
descritas em outros cenários, o que foi uma decisão acertada, visto que não
haveria relevância tratar de outros reinos em batalha se estes pouco teriam
importância no desenvolvimento. A proporção beligerante da história obrigou o
autor a reduzir o foco narrativo, caso contrário a obra final sairia com um
número gritante de páginas e conteúdo excessivamente desnecessário.
É
curiosa a mudança de textura na história.
No primeiro livro, temos o ataque de um pirata e uma bruxa ao reino de
Arzallum; no segundo, o torneio de pugilismo reunindo Campeões de reinos em
Nova Ether e explorando como nunca o protagonista Axel Branford; no terceiro,
temos a Guerra Mundial que gera cenas totalmente “inéditas” e sanguinolentas.
Essa mobilidade de gênero é interessante, passa um “feeling” diferente a cada
história contada. Mas, ao mesmo tempo, também é perigosa e suscetível a causar
maior desagrado entre os leitores que se apegam demais a determinado gênero
moldado pela narrativa. Eu, por exemplo, vejo o primeiro volume como o ápice de
Dragões de Éter, atribuindo àquela primeira trama até mesmo a verdadeira
essência da história. Na verdade, achei Caçadores
de Bruxas muito melhor desenvolvido em questão de personagens e
aproveitamento dos mesmos, e com uma história que casa melhor com o universo de
Nova Ether, apesar dos volumes seguintes conterem ótimas passagens que também passam
o mesmo sentimento.
Na
trilogia, Círculos de Chuva me parece
ser aquele que possui os núcleos de personagens mais fragmentados e afastados.
As conexões entre eles são bem indiretas, relacionados quase sempre a guerra de
Arzallum e outras consequências do período bélico. Tive a impressão de
contemplar contos esparsos que, vez ou outra, faziam alusão entre eles. A trama
de Snail Galford, apesar de interessante, passou quase o livro inteiro à margem
da principal linha da história, embora seu papel naquilo tudo se desse nas
últimas páginas do livro; seu percurso foi apenas uma construção como
personagem para algo maior no futuro de Nova Ether, mas me agradaria vê-lo, de
alguma forma, num diálogo mais objetivo com a trama desse livro. No mais, os
personagens, pelo menos, passaram por uma evolução em seus respectivos
acontecimentos, o que, de maneira geral, criou uma enorme curiosidade para saber
o futuro deles nos livros seguintes.
O
(suposto) personagem principal Axel Branford ficou bastante apagado na história
após todo o seu protagonismo durante o torneio de pugilismo em Corações de Neve. Ele foi usado como
intermédio para mostrar ao leitor as maravilhas da cultura élfica. Acredito que
o autor tenha preferido balancear a importância do personagem, sendo explícita
no torneio de pugilismo, e implícita no casamento de fim político com a
princesa Livith. Achei plausível esse equilíbrio, mas a risco de diminuir muito
o personagem; Axel poderia ter sido explorado um pouco melhor ao final do
livro, durante a invasão ao Reino dos Gigantes, para compensar toda a falta de
ação, no sentido literal, do príncipe de Arzallum. Todavia, as atitudes e os
diálogos do personagem deram a ele algum brilho para que não se apagasse. O
“clímax” de Axel Branford, porém, foi mostrado em um diálogo ao final do livro,
referente a um acontecimento logo no início da história, que será um gancho
muito instigante numa próxima narração em Nova Ether.
Não
posso deixar de mencionar os momentos de risada e emoção, já característicos em
minhas leituras de Dragões de Éter,
embora menos frequentes nesse volume, quase todos endereçados a João Hanson e
Ariane Narin. Confesso que passei a gostar excessivamente da última, achava-a
irritante no início da série.
Aproveitando-se
constantemente dos contos de fadas, Draccon é inspirado agora pela Terra do
Nunca. Esse lugar mágico na infância de qualquer criança ganha uma roupagem um
pouco diferente neste livro. Na Terra do Nunca vivem elfos, elfos dessemelhantes da figura clássica que temos em nossa mente. Contudo, a descrição
concreta e social da Terra do Nunca não é o que a torna especial na história, e sim
o teor espiritual que se constrói no desejo do personagem Axel Branford em
tentar compreender aquela raça; um elfo e um humano tentando entender um ao
outro. Retirando o adorno fantástico da situação, é o mesmo que dois homens de
culturas distintas procurando a compreensão entre eles.
Como o
próprio Raphael Draccon diz acerca de histórias do gênero fantástico, que “
a fantasia é uma metáfora da vida”, o autor também passa essa mensagem através
de seus livros. A saga é formulada em várias camadas; desde o enredo em si,
passando pelas referências contemporâneas, e chegando ao lado espiritual e
reflexivo. E creio ser essa uma importante e fascinante marca de Dragões de
Éter. Por essa razão que recomendo a trilogia de Raphael Draccon a todos os
leitores do gênero que procuram esse lado na Fantasia.
