Quando
se fala em “Gundam”, muitos lembram o anime Gundam
Wing, exibido no saudoso Toonami do Cartoon Nertwork. Os espectadores menos
familiarizados com o universo deste anime talvez desconheçam que a série é como
um Power Rangers, renova-se a cada temporada com enredo e temática
diferentes, mas sem abandonar alguns elementos paradigmáticos que compõem a
essência da franquia. Mobile Suit Gundam — como é chamado sem abreviação
— estreou no longínquo ano de 1979 e perdura ainda hoje como uma das séries
mais populares do gênero mecha — histórias protagonizadas por personagens que
pilotam robôs (mobile suits) —, contando com uma variedade de séries para a TV,
Ovas, e animações para o cinema. Dentre essas séries, está o Mobile Suit
Gundam Seed.
Criadores: Hajime Haytate, Yoshiyuki Tomino
Gênero: Mecha, Militar, Romance
Data de exibição: 5 de outubro de 2002 - 27 de setembro de 2003
Nº de episódios: 50
Estúdio: Sunrise
Essa série situa-se na chamada Era Cósmica, um
futuro em que o elevado conhecimento genético levou a raça humana a se dividir
em pessoas normais, alcunhados de Naturais (Naturals), e pessoas geneticamente
modificadas de forma a serem mais fortes, ágeis, inteligentes e imunes às
doenças, denominados de Coordenadores (Coordinators). Os Naturais habitam o
planeta Terra enquanto que os Coordenadores residem nas colônias espaciais que
compõem a nação chamada PLANT. Devido ao legado histórico de desavenças entre
Naturais e Coordenadores, as nações da Terra se uniram para formar a Aliança
Terrestre, uma força militar para fazer frente à ZAFT, organização militar da
PLANT. Há ainda o país de ORB, a única nação terrestre que é neutra, que não
discrimina nem Naturais nem Coordenadores, pois ambos convivem no pequeno
território do país. ORB só não foi tomada pela Aliança Terrestre ou por ZAFT
porque o país detém uma respeitável provisão bélica. E assim como ZAFT possui
territórios conquistados no próprio planeta Terra, ORB também possui algumas
colônias no espaço.
A situação entre Coordenadores e Naturais se
complica quando a Aliança Terrestre lança um ataque nuclear à colônia de Junius
Seven. Em réplica a essa tragédia, a ZAFT envia dispositivos chamados de
“nêutron jamers” à superfície da Terra, que inibem a energia nuclear no
planeta, gerando assim uma crise de energia no mundo e a impossibilidade do uso
de armas nucleares. A discórdia entre as duas nações aumenta e a sensação de
uma nova guerra parece cada vez mais real, ainda mais com a atuação de um grupo
ativista, dentro da Aliança Terrestre, chamado Blue Cosmos cuja ideologia
radicalista é a visão de que os Coordenadores são aberrações da natureza e que
devem ser extintos.
Todos esses eventos já ocorreram até o início da
história. O anime começa quando a ZAFT, ao descobrir que a colônia de
Heliópolis, pertencente à ORB, estava secretamente fabricando novos modelos de
mobiles suits para a Aliança Terrestre, ataca essa mesma colônia com o fim de
capturá-los. Esses novos modelos são os Gundams. Os cinco pilotos da ZAFT na
operação, pertencentes ao esquadrão Le Creuseut, que será o grupo antagonista
da série, roubam os Gundams. Mas um dos pilotos acaba morrendo no confronto, e
um modelo deixa de ser tomado, o Gundam Strike, que no meio da batalha acaba
sendo pilotado por Kira Yamato, um jovem Coordenador que estudava computação
científica em Heliópolis e o protagonista da história. Porém, pouco antes de
entrar no Gundam, Kira reencontra seu amigo de infância, Athrun Zala, também
filho do futuro presidente da PLANTA e piloto do esquadrão Le Creuseut. Os dois
são afastados no calor da batalha, mas como Kira e seus amigos de escola
sobrevivem e sobem à bordo da Archangel, um novo modelo de nave militar, que
também é um dos alvos da ZAFT, os amigos acabam se enfrentando, Kira usando o
Strike, e Athrun, o Aegis, um dos Gundams roubados.
A amizade é um sentimento bastante explorado nos
animes e mangás, um dos recursos mais populares numa história para uma
sociedade que preza o coletivo. A relação entre Kira e Athrun é certamente uma
das mais cativantes da franquia Gundam, e ela sustenta a maior parte do clímax
da série. Amigos obrigados a lutar como inimigos.
Na primeira parte da história, que se passa
inicialmente em Heliópolis e depois no espaço, a nave Archangel está fugindo da
nave do esquadrão Le Creuset. Athrun luta pela ZAFT, e Kira, na condição de um
civil transformado em soldado, somente está defendendo a Archangel onde seus
amigos estão. Para complicar a situação, a noiva de Athrun, Lacus Clyne,
vagando no espaço numa pequena nave salva-vidas é resgatada pela Archangel, e
acaba tendo um relacionamento sutilmente afetuoso por Kira. Então será um
triângulo amoroso? Não. Na segunda parte da história, Cagali Athha, a jovem
filha do presidente de ORB, se depara com a Archangel quando ela chega à Terra
e mantém uma relação “complicada” com Kira. Um quarteto amoroso, então? De
novo, não. Uma colega de Kira à bordo da Archangel, Flay Allster, “se apaixona”
por Kira para que ele a proteja das forças de ZAFT, mesmo ela tendo ódio pelos
Coordenadores (e Kira não deixa de ser um) e simpatizante com a causa do Blue
Cosmos. Um quinteto amoroso, então? NÃO! Flay está noiva de Say Argyle, um dos
colegas de Kira também à bordo da Archangel, e não sente remorso algum em
traí-lo. Ou seja, Gundam Seed também se sobressai pelos conflitos amorosos dos
personagens, embora na prática eles não sejam tão intensos assim (exceto em
algumas ocasiões).
Os personagens femininos ganham destaque na
história. Lacus Clyne é uma jovem bonita pertencente a uma família importante e
uma cantora idolatrada em PLANT. Sua influência sobre a massa é visível, mas
apesar da voz delicada, possui forte personalidade que será testada ao extremo
nos últimos episódios do anime. Já Cagali Athha não tem um pingo de delicadeza,
faz o tipo de filha rebelde e gosta de atuar nos campos de batalha, embora
cometa alguns atos amadores. A capitã da Archangel, Murrue Ramius, também
possui determinação e acuidade em suas decisões, qualidade que permite à nave
sobreviver por inúmeras batalhas, sempre contando com o apoio de Kira e do
oficial Mu La Flaga, a quem ela acaba se apaixonando. Por último, Natarle
Badgiruel, a tenente que auxilia a capitã da Archangel, de personalidade meio
fria e machona, que ganha uma importância decisiva na segunda metade do enredo.
Enfim, Gundam Seed possui personagens e elementos para agradar também o
público feminino — até as explosões que ocorrem no espaço são rosas —, mas o
contexto bélico, as cenas de ação e a trama empolgante acabam por atrair também
o público masculino, afinal, Gundam encaixa-se normalmente como um anime
seinen.
A respeito do protagonista Kira Yamato, embora tenha incríveis habilidades provadas enquanto pilota o Gundam Strike, possui uma personalidade instável devido às circunstâncias em que se encontra. Ele é um Coordenador de uma nação neutra protegendo uma nave da Aliança Terrestre contra o esquadrão de ZAFT em que está seu melhor amigo. Além disso, por não querer se envolver nas batalhas, não deseja matar ninguém, mas é forçado a lutar para proteger seus amigos e os residentes da nave; transformando-se, dessa forma, de um civil para um soldado. Em vários momentos, Kira sente remorso por matar e por não conseguir impedir que as pessoas que ele deveria proteger fossem assassinadas, o que resulta num personagem completamente perdido psicologicamente. Para equilibrar o protagonista nas batalhas, a presença de Mu La Flaga como auxiliar no combate e como conselheiro é necessária para manter o personagem na linha. Por essas razões, Kira é ao mesmo um tempo um personagem forte, tendo em vista que consegue lidar com mais de dois inimigos Gundams ao mesmo tempo, e fraco por sua conduta hesitante nos eventos. E para realçar a imagem do personagem, ele possui um robô de estimação chamado Tori, um pássaro verde e amarelo recebido de Athrun como presente.
De forma não muito precisa, a história conta com
quatro arcos que correspondem às quatro temporadas do anime — considerando
“temporada” aqui como o conjunto de episódios que recebem uma mesma abertura,
ou seja, uma mudança de abertura equivale a uma nova temporada. O primeiro arco
da história foca na perseguição sobre a Archangel pelas forças de ZAFT ocorrida
inteiramente no espaço. A perseguição continua no segundo arco da história, que
se passa agora na Terra. As duas primeiras temporadas apresentam um
desenvolvimento plano e regular, sem reviravoltas efetivas para o universo da
história, uma vez que se trata do confronto entre duas nações, e as ações
apresentadas na primeira metade do anime contribuem apenas para o
desenvolvimento de alguns personagens situados em núcleos específicos. É apenas
a partir da terceira temporada que o anime começa realmente a se destacar,
saindo de avaliação mediana ou até abaixo do esperado para se tornar uma trama
acima da média e recheado de reviravoltas que, aproveitando-se dos pequenos
avanços nos dois primeiros arcos, instigam e impressionam o espectador. A
relação entre os personagens torna-se mais estreita e algumas mortes forçam os
personagens a executarem ações mais radicais capazes de alavancar a trama. Além
do mais, surgem outros núcleos de personagens e a dimensão da história
amplia-se de tal forma que podemos finalmente ter uma ideia do contexto bélico
no universo de Gundam Seed. No entanto, a aparição de novos antagonistas
na segunda metade do anime parece forçada, já que nenhum deles é mencionado
anteriormente, sem levar em conta que a personalidade deles é praticamente
débil. A única explicação para isso é que tais personagens possuem
exclusivamente a função de testar apenas com a força (eles pilotam móbiles
suits) a sincronia entre Kira e Athrun, que antes oponentes um do outro, devem
unir forças para derrotá-lo.
No quesito animação, infelizmente, Gundam Seed
deixa a desejar. Como um anime produzido em 2002 esperava-se um resultado muito
maior nas cenas de batalha, que apresentam um excessivo uso de repetições. As
lutas são mostradas de maneira um pouco fragmentada, quase sem nenhuma
linearidade, e o foco das cenas quase sempre no cockpit do piloto ou nos
mobiles suits atirando. Mas se a animação não possui um padrão aceitável, a
trilha sonora compensa e até chega a maquiar parcialmente os desgostos causados
pela baixa qualidade da animação. Gundam Seed é aquele anime cuja trilha
sonora ficará gravada na sua mente depois de assisti-lo. Alguns temas são
recorrentes ao longo da série, tocados em momentos apropriados e facilitando a
caracterização do anime. Não apenas as músicas de fundo, mas as das aberturas e
encerramentos, voltadas para um ritmo mais pop e dramático, conseguem cativar.
Vale destacar que algumas batalhas recebem músicas cantadas como fundo. Além
disso, a personagem Lacus Clyne é uma cantora na história e sua voz marca
presença em alguns momentos, até mesmo durante as crises de guerra, e que
talvez sejam as cenas mais impressionantes da série.
No mais, é um anime recomendado para quem curte o
gênero e aprecia todas as qualidades supracitadas. Ele inclusive ganhou o
prêmio de melhor anime de 2002 no
Anime Grand Prix, um respeitado prêmio de animação japonesa.





