Car****! Essa e outras palavras de
mesmo teor saíram de minha boca ao vislumbrar este filme que, não sei por quais
malditas razões, não o conferi há muito tempo, já que é um dos épicos trabalhos
do diretor Miyazaki. Achei-o tão fascinante que repeti a dose no dia seguinte;
e até tenho vontade de vê-lo uma terceira vez. Sei que venho falando de forma
sucinta das animações do diretor, mas necessito gastar um pouco mais de linhas
com Princesa Mononoke.
O filme já inicia com uma cena de
tensão, quando um Tatari-Gami (deus da Maldição) se apodera do corpo de um deus
Javali e corre desenfreado pela floresta. O jovem Ashitaka, príncipe da vila de
Emishi, percebe algo ruim prestes a ser vomitado pela floresta, e decide combater
o Tatari-Gami antes que ele se aproxime do vilarejo. Ashitaka consegue
derrotá-lo, mas acaba sendo amaldiçoado pela criatura, e, após tentar
esclarecer a maldição com os anciões da vila, decide viajar para as terras do
oeste, onde acredita descobrir o segredo de sua maldição e a cura para ela. Sua
viagem o leva até uma cidade de ferro governada por Lady Eboshi, uma ambiciosa
mulher que possui o segredo da pólvora e intenta destruir a floresta, para
ampliar seu domínio, e até mesmo desafiar o imperador do Japão; e também possui
a Princesa Mononoke como inimiga, uma garota que vive com o clã dos lobos na
floresta e cujo nome verdadeiro é San. O objetivo de Ashitaka passa então a não
apenas retirar a maldição de seu braço (que aumenta com o passar do tempo), mas
também arranjar uma maneira diplomática de impedir a guerra entre o homem e a
natureza. A história se desenrola de forma instigante, paulatinamente
emocionante, sem um único minuto de enrolação. Os acontecimentos vão sendo
costurados até os últimos momentos do filme, que guarda uma sequência de clímax
seguido de outro clímax.
Pela primeira vez, um filme de Miyazaki apresentou cabeças e braços voando (e tudo por causa de uma flecha overpower de Ashitaka ao utilizar o seu braço amaldiçoado), e, claro, rolou toda uma censura quando o filme veio ao Ocidente: a Disney, que mantinha contrato com o estúdio Ghibli, tentou passar a tesoura nas cenas violentas, inclusive na capa, que possui a boca ensanguentada da Princesa Mononoke (e dentro do filme, é uma cena linda). Mas depois do corte de quase meia hora feito em Nausica e o Vale do Vento, este contrato não mais permitia censurar as produções do estúdio, e, como resultado, o filme passou em poucos cinemas na época, não conseguindo o resultado de bilheteria esperado (óbvio!).
O universo apresentado em Princesa Mononoke é deveras fantástico e
curioso. Ambientado em meados do século XIV no Japão, o homem encontra-se em
desavença contra os deuses da floresta, que formam verdadeiros clãs (Javalis,
Lobos, Macacos) e respondem a um grande deus que é o Espírito da Floresta,
representado de dia por um alce com uma galhada abundante e um rosto bem
pitoresco, e de noite por um gigante translúcido que caminha sobre a floresta.
Há também os Kodamas, figuras presentes no folclore japonês e que habitam as
árvores. Entre estes deuses, Moro, a deusa-loba e “mãe” de San, é minha
preferida, sendo irônica em alguns momentos e realizando uma das cenas mais
inusitadas ao final do filme.
A divergência entre homem e natureza é explícita no longa; de um lado os clãs liderados pelos deuses que querem conservar a floresta, do outro os humanos que querem ampliar seu território e somente retirar as riquezas da natureza. A batalha consecutiva entre a princesa Mononoke e Lady Eboshi é a personificação desta cisão, e entre elas, Ashitaka sempre levanta a questão se é realmente necessário aquela batalha, se o homem e a natureza não podem conviver juntos. Mas há também as desavenças internas dos seres humanos, catalisadas pela ganância de Lady Eboshi em desafiar o Imperador, para isso utilizando-se de suas armas de fogo produzias por leprosos que ela acolheu em sua cidade mineradora.
Em uma análise sobre as personagens femininas, como não poderia faltar numa produção de Miyazaki, San e Lady Eboshi são bem construídas. A primeira, abandonada em meio à guerra e depois criada por lobos, odeia os humanos por tentar destruir a floresta e não reconhece a própria humanidade. Mas ela passa a descobrir seus sentimentos humanos ao conhecer Ashitaka. No caso de Lady Eboshi, é a matriarca de uma cidade mineradora onde as mulheres trabalham na mineração e os homens cuidam do gado. É uma líder respeitada e ambiciosa, que aparentemente se preocupa com seu povo, mas que coloca a ganância em primeiro lugar, ainda mais quando se trata de caçar o Espírito da Floresta, já que quando este for morto, a floresta morrerá e ela terá todo esse território para ela.
Embora o nome da animação seja Princesa Mononoke, quem participa mais
ativamente da trama é Ashitaka, que acompanhamos desde sua partida da vila
natal até a guerra entre Lady Eboshi, os clãs das florestas e as tropas do
Imperador. “De qual lado você está?”, é a pergunta mais frequentemente
direcionada a Ashitaka, que não está no lado de ninguém, apenas visa uma forma
diplomática de controlar toda a situação beligerante. E por causa disso, nunca
permanece ocioso, está sempre se envolvendo no meio das batalhas.
A produção do longa demorou quase
20 anos para ficar pronta, e o resultado é nítido na beleza das animações que
pode até ser confundida com a de produções recentes. Foi um dos filmes mais
caros do cinema japonês e que como recompensa foi aclamado pela crítica e pelo
público. Outro fator inesquecível neste filme é sua trilha sonora, composta por
Joe Hirashi, que confere uma sensibilidade grandiosa à história.


