Editora: Pocket Ouro
Autor: Pierre Boulle
Tradução: André Telles
Ano: 2008
Skoob
Sinopse: No ano de 2500, o professor Antelle, o físico Arthur Levain e o jornalista Ulysse Mérou deixam a Terra. Eles embarcam numa nave cósmica, em direção ao extraordinário sol vermelho Betelgeuse, na constelação de Órion. O destino encontra-se a 300 anos-luz da Terra e até atingi-lo passam-se, em nosso planeta, cerca de três séculos e meio, enquanto os viajantes, devido à dilatação do tempo, têm a sensação de passarem-se apenas dois anos.
Resenha
Minhas
lembranças sobre o Planeta dos Macacos remontam aos três últimos filmes
lançados. Obviamente, minha expectativa para esse livro era de que superasse a
adaptação de 2001, que dentre esses últimos, é o mais próximo do enredo
original. E fiquei satisfeito, ao término da leitura, que o romance é
destituído de quase todos aqueles elementos que configuram os blockbusters e
apresenta qualidade superior as adaptações que cheguei a ver.
O primeiro
capítulo do livro é narrado em terceira pessoa e aborda a viagem de um casal no
espaço, e a julgar pela descrição de suas aventuras e da nave na qual viajam,
são indivíduos que possuem uma tecnologia bem avançada em relação a nossa. No
final deste capítulo, eles encontram uma garrafa vagando a esmo no espaço e acham,
dentro dela, páginas de relato de um homem chamado Ulysse Mérou, que acredita
ser um dos últimos sobreviventes da espécie humana. Logo, os capítulos
posteriores do livro, a exceção do último, apresentam a narrativa de Ulysse.
Embora o romance de Pierre Boulle dê o ar de
uma história de entretenimento, uma leitura mais acurada é capaz de descortinar
reflexões interessantes acerca da espécie humana. E para esse fim, acompanhamos
seres humanos, mas não qualquer pessoa, e sim renomados cientistas e detentores
de faculdade privilegiada, jogados em um planeta onde sua espécie vive como
selvagens desprovidos de racionalidade, e os macacos se apresentam como um ser
de mente quase igual ao Homem da Terra. É interessante notar que um dos
personagens da nave, durante o excessivo e forçado contato com os selvagens,
acabou por se transformar em um deles, permitindo que sua inteligência entrasse
em decadência. Terá sido o meio o principal fator de sua regressão, ou algo
mais?
Boa parte da
história se foca na tentativa de Ulysse em mostrar aos macacos que ele é um ser
tão racional, dotado de alma, quanto os símios. Nessa insistência, ele consegue
dois aliados, Zira e Cornelius — chimpanzés casados —, que tentam provar a
todos que Ulysse é um homem extraterrestre e tão racional quanto os macacos. A
sociedade símia é dividida em três classes: os orangotangos, os chimpanzés, e
os gorilas. Dentre os três, os orangotangos são os que mais ocupam o cargo
científico, porém, são bastante céticos e teimosos em aceitar Ulysse como ser
pensante. Em determinado trecho da narração, podemos discernir uma linha
crítica em relação a certos grupos conservadores que estagnam o conhecimento no
meio acadêmico, com os orangotangos, como exemplo.
Pomposos, solenes, pedantes, desprovidos de originalidade e senso crítico, obcecados com a tradição, cegos e surdos a qualquer novidade, adorando clichês e lugares-comuns, formam o substrato de todas as academias. Dotados de uma memória impressionante, aprendem nos livros inúmeras disciplinas, de cor. Em seguida, eles próprios escrevem outros livros, nos quais repetem o que leram, o que lhes vale de consideração por parte de seus irmãos orangotangos.
Usando esse
trecho como gancho, Ulysse logo percebe que a civilização símia evoluía numa
velocidade risível, pois eles simplesmente imitavam
o que seus descendentes realizavam, sendo que, a cada século, alguns macacos das letras conseguiam subir um
degrau na escada intelectual. Em seguida, há uma crítica incisiva a nossa
indústria, de que ela não necessita de uma base intelectual para durar no
tempo, uma vez que se realiza por meio de gestos mecânicos e pessoas de
diversas hierarquias trabalham seguindo um mesmo modelo continuamente.
Outra
questão jogada no romance é a substituição de macacos por homens dentro do
contexto de experimentos laboratoriais. Os símios utilizam a nossa raça como
cobaias em prol do avanço da ciência, assim como nós, humanos, fazemos com os
animais (incluindo macacos). Esse contraste é sentido pelo próprio Ulysse em
sua narração, durante sua visita a um setor de experimentos.
Planeta dos
Macacos é um romance inteligente salpicado por críticas a nossa sociedade no
que diz respeito a sermos tão evoluídos quanto pensamos ser.
E o final é
duplamente surpreendente! Mas o impacto é menor para aqueles que já viram a
adaptação.
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